• Mariléia Sell

À meia

Ao primeiro cantar do galo, já estava tudo pronto. Havia sido difícil no começo, mas, aos poucos, construía uma disciplina de rigor infalível em seu próprio despertar, chegando à proeza de se antecipar às galinhas em seus hábitos madrugadores. Antes que o galo cantasse, pois, um prato de comida, farto em certa medida, esperava sobre a mesa. O homem ainda dormia. As crianças também. Rolos de fumaça lançados para o ar denunciavam o fogão em plena ebulição. A marmita de Cleomar estava sendo preparada e seria enrolada em um pano branco, lavado com sabão de soda, coarado no sol e mergulhado na água com cubos de anil. Uma equação complexa essa de conseguir panos brancos em um lugar com tanta poeira vermelha. Os preparativos para o dia do marido eram os mesmos de ontem, seriam os mesmos de amanhã. Os dias empilhavam-se em calendários amarelados sem nenhuma novidade. Cada dia era a repetição da véspera e o prelúdio do dia seguinte. Deus parecia sempre ocupado com outras paragens do mundo, esquecera daquele lugar.


Arte de Daniel Cunha

Impossível precisar a idade de Cleomar; o tempo de enxada dera-lhe o bônus de anos extra, anos que ainda não tinha. Que talvez nem teria. Arrancava o sustento de uma terra avarenta. Não a sua terra. Não tinha terra, sequer uma avarenta. Plantava à meia. E o patrão era milimétrico nas contas. Era também muito exigente; não admitia corpo mole. A cada duas palavras, uma era para lembrar que era dono das terras e que podia, muito bem, empregar alguém mais produtivo. E se havia algo certo nessa vida é que sempre tem alguém mais produtivo a se temer, Cleomar sabia. E engolia em seco. Mesmo diminuído na sua condição de homem, não era louco para retrucar. Sabia do seu lugar no mundo. Ouvia, baixava a cabeça e voltava à enxada.

Cleomar apenas parava para administrar o suor que escorria pelas valas profundas da pele para dentro dos olhos, causando uma ardência incômoda. Como se tivesse entrado água do mar, mas não conseguia fazer essa comparação; não conhecia o mar! Esfregar com as mãos cheias de terra seria pior, então apertava os olhos como se fossem limões até enxergar pontinhos luminosos. Apesar de não se poder adivinhar a sua idade, Cleomar ainda era novo. Não se lhe poderia pendurar medalhas de produtividade, é verdade, tampouco se poderia acusá-lo de leniência. O que lhe faltava, isso sim, era ânimo, mas desânimo, mesmo sendo parente da preguiça, não podia interferir na sua avaliação de desempenho. Simplesmente não encontrava razões para mostrar empolgação. O que precisava ser levado em conta, na sua opinião, é que não se descuidava do feijão e do milho. Combater ervas daninhas era, por si só, a batalha de uma vida.

Acostumara-se a calcular tudo pela metade, Cleomar. Nada lhe era dado por inteiro. E a metade que lhe cabia mal dava a ele e a sua família o direito à penitência de existir. Aprenderam, ele e a mulher, mais a mulher do que ele, a equação do milagre, a elaborada matemática da sobrevivência. Economizar era o meio de adiar para o dia seguinte o completo desespero.

Assim como as formigas, Cleomar voltava pra casa ao cair de cada noite. Sempre voltava. Era a sua marcha diária pela comida. Mas não era a marcha determinada das formigas. Era uma marcha arrastada, mole. Quanta humilhação um homem pode aguentar na vida, afinal? Na sua condição de homem diminuído, de senhor sem território, exaltava-se facilmente em casa. Às vezes, a frustração evoluía para tapas e socos. A esposa calava porque não era louca pra retrucar. Sabia do seu lugar no mundo. A cada duas palavras, uma era para lembrar à mulher que era ele a buscar o sustento da família e que podia, muito bem, ir embora. E se havia uma coisa certa nessa vida é que os homens vão embora, ela sabia. Do mesmo jeito que as ventanias empoeiradas sufocavam tudo, os maridos desapareciam, repetia para si mesma. Também aprendera a não ter nada por inteiro. A matemática da vida sempre se impunha! A única coisa farta era o cantar do galo todas as manhãs. Disso também sabia, pois sempre acordava primeiro do que ele. Diariamente.

Texto publicado originalmente em Visão do Vale, em 30/01/2019.

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