• Mariléia Sell

A angústia da impermanência

Nunca fora adepto a mudanças. Gostava do ambiente imutável e da rotina absolutamente previsível. Todos os dias era a mesma coisa: levantava com o despertador e fazia a sua refeição matinal, com o regozijo que só a estabilidade da vida pode proporcionar. Depois, seguia com as atividades de sempre. As mesmas movimentações, os mesmos cheiros, tudo sempre igual. A segurança era o indicador máximo de felicidade, pensava, com o seu jeito peculiar de elaborar sobre as coisas.


Ultimamente, porém, começou a perceber um certo frenesi na casa, as pessoas pareciam mais agitadas. Estavam escondendo algo dele, isso era certo! Algo horrível, pressentia. Temores secretos foram tomando a sua alma e envenenando a sua alegria de viver. A desorganização no ambiente causava-lhe inquietações. Andava pela casa como se estivesse em território movediço, as paredes já não impediam a entrada dos inimigos e o teto parecia arremessar-se sobre a sua cabeça a qualquer momento. Era a iminência da mudança. E mudanças tiravam-lhe a paz.

Tiravam-lhe também a fome. E se tinha algo nessa vida que jamais perdia era a fome. Tinha um apetite sólido. Nunca conseguira entender aqueles que comiam apenas para sobreviver. A comida ocupava um lugar central nos seus pensamentos. Se desse para traduzir em números, daria para afirmar, com pequena margem de erro, que devotava dois terços do seu tempo pensando na próxima refeição.

Para o seu azar, a imaterialidade de sua ansiedade manifestou-se na concretude da vida. Sem querer, quebrara um lampião e um vaso. O lampião causou especial comoção na casa, era uma antiguidade. O vaso era mais fácil de repôr, era desses que se encontra em lojas de decoração. Não necessariamente em qualquer loja. Não necessariamente barato. Os prejuízos provocaram muita revolta na casa. Ele percebeu a mudança de humores.

O dia anunciado finalmente chegou. O seu pior temor concretizava-se bem ali, na sua frente. Secretamente, sempre temera por sua vida tranquila. Constatara, agora, e da pior forma, que não é lenda essa história de que aquilo que se teme é justamente aquilo que acontece.

A casa foi invadida. Tudo foi tomado, arrancado de forma apressada, quase brutal. Já não aguentava mais a ansiedade. Até tentou argumentar. Num derradeiro esforço para alcançar a frieza das naturezas humanas que o cercavam, ainda mais perto chegava do seu próprio coração selvagem. Alterou a voz num grito furioso. Exigia explicações. Mas era solenemente ignorado. Era tarde demais para ele. Esconde-se no canto mais improvável, fica imóvel, quase não respira. Reza para não o acharem. Mas acharam. Sempre acham! O peito disparou num ritmo perigoso, parecia morrer ali mesmo. Se morresse, estaria tudo resolvido, conseguiu ainda pensar, atordoado, confuso.

De forma ocasional, sem prelúdios, sem anúncios, na mais absoluta frieza, fora levado. Para onde, não poderia saber. Decidiu que não queria saber. Fechou-se em si. Fechou os olhos. Não enxergar é também uma opção. Parou de falar. Não lhe davam respostas mesmo.

E quando ele pensava que estava, enfim, acabando, recomeçava tudo outra vez. Ao chegar ao novo endereço, Wolfgang enclausurou-se no único lugar que o manteria à salvo dos estrépitos convulsivos da mudança que nunca, nunca terminava. Seu refúgio era a cestinha de viagem para gatos, gatos burgueses assim como ele, aquela onde o trancavam quando o levavam ao veterinário para submetê-lo à tortura das vacinas. Depois da mudança de casa, jamais se aborreceria de ter que tomar as vacinas, ele diria com palavras humanas, se a natureza lhe permitisse dizer alguma coisa.

Texto publicado originalmente em Visão do Vale, em 18/11/2018.

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