• Mariléia Sell

A letra escarlate

Lúcia corria por becos escuros e ruas esburacadas. Muros erguiam-se e estreitavam-se, ameaçadoramente, sufocando-a. Sem fôlego, calculava estratégias para não ficar encurralada em alguma ruela sem saída. Seria fatal se isso acontecesse. Seus pés latejavam de dor. Mas não era hora de prestar atenção na dor. A dor que esperasse a vez dela. Havia coisas mais urgentes disputando a sua atenção agora. Certas distrações na vida devem ser evitadas a todo custo. Era preciso correr. Era correr ou morrer, ela sabia.


Arte de Daniel Cunha a partir da ilustração de Henn Kim.

Sombras assustadoras projetavam-se pelas paredes. Sinistros galhos de árvores avançavam em direção aos seus cabelos. Era preciso muita astúcia para desviar dessas investidas sinuosas. Lúcia corria. Nunca fora tão vital correr. Podia sentir o peito levantar-se com as batidas do coração. Mal dava conta de assimilar pequenos olhos vermelhos espreitando-a dos cantos. A consciência de todos os perigos dessa vida pode ser paralisante, por isso é que a felicidade estava na ignorância!

Lúcia conseguia ouvir, ao longe, o som da multidão se aproximando. O chão tremia. Estava perdida. Não teria como desviar de tanta gente. Centenas de pessoas avançavam com a firme resolução de fazer justiça com as próprias mãos. Homens, mulheres, e até crianças, revestidos de sua missão divina, só parariam depois de restabelecida a ordem do mundo. A punição exemplar de Lúcia devolveria a todos a certeza das recompensas de uma vida reta. O pecado era sempre uma ofensa a todos. Dizia respeito a todos. Seria punida exemplarmente. E em praça pública. Por que a nova ordem estabelecera as prioridades com muita clareza, e o mundo de Lúcia abrigava os inimigos mais perigosos do projeto que se erguia. Para servir de lição a todos, seria punida. Que todos soubessem das consequências de pecar e que todos se convencessem de que a virtude é o caminho da salvação. Essas medidas pedagógicas eram muito eficientes! Inegavelmente eficientes, sabiam os guardiões da moral e dos bons costumes.

Não havia mais para onde correr. Ainda conseguiu divisar uma ratazana olhando-a fixamente. Se olhasse melhor, daria para ver a bicha sorrindo. Exausta, Lúcia desligou-se e começou a olhar tudo de cima. Era uma técnica que aprendera sempre que precisava lidar com situações muito estressantes. Não se debateria. Não resistiria. Docilmente iria para o cadafalso para apaziguar a multidão com sangue nos olhos. Não diria nada em sua defesa. Não proferiria impropérios. Nem diria as suas últimas palavras. Seu silêncio total seria a sua última insurgência. Seria a sua estratégia final!

Conseguia ouvir o crepitar do fogo devorando a lenha. Sentia um calor subindo pela sola de seus pés. Em breve o fogo a consumiria. Sempre tivera medo do fogo. Lembrou-se de uma queimadura que tivera quando criança. Como doeu! Fechou os olhos para não ver. Mas a sua mente adiantava o que viria. Antes de fechar os olhos, ainda viu a multidão satisfeita com o espetáculo. Dormiriam todos em paz hoje. Teriam livrado o mundo da influência insidiosa de mais uma bruxa.

O calor tornou-se insuportável. Lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Lúcia. Acordou ensopada e assustada. O despertador a lembrava de que era final de semestre e que tinha ainda 94 provas para corrigir naquele dia.

Texto originalmente publicado em Visão do Vale, em 03/12,2018.

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