top of page
  • Foto do escritorMariléia Sell

A neguinha sem corpinho

Pensamentos inconfessáveis, cuidadosamente ocultados nos porões da consciência, eventualmente vazam para além do território do mundo privado e chocam a opinião pública. Falas condenáveis que sobem à superfície de forma acidental alcançam visibilidade através de microfones abertos, câmeras indiscretas, telefones grampeados, escutas programadas ou mensagens hackeadas e são exatamente essas falas que revelam o que, de fato, as pessoas pensam, não aquilo que elas dizem pensar em seus discursos planejados e politicamente corretos. Sem vigilâncias externas e na companhia de pessoas que compartilham do mesmo sistema de crenças, instaura-se o conforto de estar entre iguais, o conforto de poder ser quem se é, sem ameaças, sem julgamentos. Na vida social, todos estão sempre atentos à possibilidade de serem julgados negativamente e esse prejuízo moral é evitado como a morte, especialmente na política, em que as pessoas dependem de sua imagem pública como do próprio oxigênio. Conflitos entre o discurso e a prática vão desidratando essa imagem tão cuidadosamente planejada e vão corroendo siglas que, na cartilha, defendem determinadas causas.



Arte de Daniel Cunha a partir da ilustração do artista polonês Pawel Kuczynski

A Câmara Municipal de Vereadores de São Leopoldo foi palco de outro episódio lamentável, em que dois vereadores (do PDT e do PT) se referem pejorativamente a uma cidadã que entra na casa do povo para participar de uma sessão. No ano passado, o assessor de um vereador (do MDB) referiu-se a uma advogada da prefeitura como ‘só mais um rostinho bonito’, por isso manifestações misóginas não são novidade nesta casa, como não o são em lugar nenhum. Bem, mas as falas dos dois vereadores em questão não foram projetadas para a esfera pública, era uma conversa entre colegas que estavam na segurança do seu mundo particular, trocando concepções de mundo compartilhadas. Não contavam com a indiscrição de um microfone aberto, um microfone que nos desse acesso aos seus pensamentos mais escondidos. Por estarem neste ambiente seguro, de pura cumplicidade, observam uma mulher negra entrando no ambiente e logo se autorizam a fazer comentários. De todas as possíveis categorias de pertencimento social desta pessoa, um dos vereadores pinçou a categoria ‘neguinha’ para se referir à mulher, ou seja, ele alçou esta categoria à mais relevante na conversa com o interlocutor. E a categoria escolhida sempre nos fala mais sobre quem a menciona do que sobre quem é mencionado. Essa pessoa é uma mulher, é uma cidadã, poderia ser mãe, filha, avó, professora, vendedora, poderia ser qualquer coisa, mas ficou reduzida a sua raça. E no diminutivo. Sim, porque, assim como as crianças, as mulheres nunca são totalmente levadas à sério.

Em sua animada conversa privada, o mesmo vereador que se referiu à mulher como ‘neguinha’, sugere que o colega ‘ficou de olho nela’. Ficar de olho nas mulheres é uma prática tão naturalizada no mundo dos machos que nem chega a causar estranhamento. Por onde quer que andemos, nossos corpos são sempre aviltados por olhares lascivos, olhares violentos. O segundo vereador nega que tenha ficado de olho, embora já tenha uma opinião formada sobre a ‘neguinha’: ela ‘não tem corpinho’.  Em instantes, escaneou o corpo da mulher e a catalogou de acordo com os seus critérios particulares de plasticidade desejável: ela não serve, ‘tem que ter corpinho’. Não é novidade nenhuma que a mulher sempre é julgada pela sua aparência física. E que essa aparência nunca será boa o suficiente para os exigentes homens, não importando se esses mesmos homens tenham corpos nada atraentes, se aplicarmos esses mesmos critérios de avaliação que empregam para nos classificar. Nossos corpos serão sempre gordos demais, velhos demais, pretos demais. Nossas capacidades serão sempre insuficientes no implacável mundo dos homens, pois o máximo que podemos alcançar é um ‘rostinho bonito’. Também no diminutivo.

De prisão em prisão, depois de vencermos o confinamento doméstico, precisamos, agora, quebrar a jaula do mito da beleza, além de, é claro, superar, de uma vez para sempre, o racismo disfarçado de ‘brincadeirinha’ em conversas mundanas e institucionais. Nossos corpos nos pertencem e não estão no mercado falocêntrico para deleite masculino. Também não precisamos da aprovação dos machos, embora algum respeito fosse desejável, porque nossos corpos são signos políticos, são territórios de afirmação e de resistência.

 

Texto publicado originalmente em Visão do Vale, em 21/06/2019

418 visualizações13 comentários

Posts recentes

Ver tudo

13 Comments


helena Messinger
helena Messinger
Nov 04, 2019

Sem dúvidas essa crônica está muito bem escrita, ela retrata a realidade da maioria das mulheres de hoje em dia. A crônica faz refletir e olhar as coisas com mais detalhes, refletindo sobre isso, quanto mais associamos a realidade com nossos sentimentos, mergulhamos profundamente nas águas de um mundo interior, reconhecendo a força da cura que cada uma de nós, mulheres, carregamos dentro de si. Com isso, a crônica é muito apropriada para pensarmos nos dias atuais.

Like

Joao Reups
Joao Reups
Nov 04, 2019

Crônica muito bem escrita, aborda como as mulheres são rotuladas diariamente, só pelo seu corpo, e/ou sua cor, por ser negra, isso é uma desrespeitos com as mesmas, não é só um corpinho bonito que te faz gente, e sim a pessoa que você é. Texto muito bom, mais pessoas deveriam lê-lo!

Like

gabimognonm
Nov 04, 2019

Um texto que nos faz refletir como nós, mulheres, ainda na atualidade somos muitas vezes vistas e reconhecidas por nossa aparência ( que para os homens nunca está de acordo com a idealização que eles fazem) e nunca por nossa capacidade intelectual, que deveria ser o que realmente importa. Mas, apesar de tudo isso, o mais lamentável é que ações como estas não tenham punições, são apenas mais um caso onde um homem se acha no direito de expor sua opinião sobre o corpo de alguém.

Like

silvajuuh3102
Nov 04, 2019

Essa crônica foi muito bem escrita e ela expõem fatos e argumentos que conseguem convencer quem está lendo e também as pessoas que não entendem do assunto. As mulheres hoje em dia são rotuladas por rostinhos bonitos, corpos definidos e essas coisas que fazem parte do nosso exterior, não são valorizadas pelo o que elas realmente são por dentro, por coisas que realmente deveriam valer a pena se importar, não apenas com coisas desse tipo. Essa crônica nos ajuda perceber cada vez mais do quando as mulheres precisam de feminismo não só em alguns casos na vida, mas sim todo dia. Até mesmo por que esses tipos de coisas acontecem cada vez mais durante o nosso cotidiano, esse tipo de…

Like

rafamz05
Nov 04, 2019

Amei a crônica! Achei muito bem escrito, com as emoções a flor da pele. Consegui sentir a indignação da escritora e senti o mesmo, essas situações acontecem diariamente com todas nós, mulheres. Sempre nos resumem somente ao nosso corpo, nossa cor, nossa roupa, ao invés de falar sobre nossos ideais e pensamentos. Infelizmente isso está longe de mudar, mas estamos juntas nessa luta até o fim.

Like
bottom of page