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  • Foto do escritorMariléia Sell

Esses machos histéricos

Uma série de pronunciamentos de pessoas públicas tem tornado difícil controlar a depressão em pleno mês amarelo. No último domingo (22), Sílvio Santos lançou a segunda edição do Concurso Miss Infantil, expondo para escrutínio da plateia os corpos de meninas de até 10 anos.  O auditório recebeu a missão, juntamente com três juradas mulheres, de ver quem tinha “as pernas mais bonitas, o colo mais bonito, o rosto mais bonito e o conjunto mais bonito”.  Isso tudo em um contexto em que a erotização precoce e a pedofilização da sociedade vem sendo problematizada em função do crescente número de casos de violência sexual. A cada quatro horas uma menina com menos de 13 anos é estuprada no Brasil. Ou seja, em uma sociedade machista como a brasileira, as meninas são vistas como um objeto para o prazer masculino. Os caducos concursos de beleza só reforçam tudo aquilo que as feministas (e as pessoas sensatas) refutariam: a valorização da menina e da mulher pela sua aparência e não por outros atributos, como o seu intelecto, por exemplo. Historicamente, essa supervalorização plástica tem nos escravizado e nos reduzido, nos objetificado e nos violentado.


Arte de Daniel Cunha, a partir de ilustrações de Strook.

Também por esses dias, Edir Macedo, o mais famoso e rico vendilhão do templo de Deus, disse, em culto para legiões de fiéis, que as mulheres só devem estudar até o ensino médio, para não se tornarem “cabeças” do relacionamento. Em sua retórica, ele afirma que se a mulher fosse a cabeça, “não serviria a vontade de Deus, mas a sua própria”. E servir a si mesma é um pecado capital pelo qual respondemos desde o atrevimento inaugural de Eva. Macedo profetiza que o paraíso é dado àquelas que se sujeitam aos maridos, caso contrário, elas estarão condenadas ao fracasso e à infelicidade. Tudo o que uma mulher precisa é de um macho, porque, no raciocínio do pastor, mulheres inteligentíssimas não sabem encontrar um cabeça.

Nessa mesma linha, do mais puro refinamento intelectual masculino, o jornalista Gustavo Negreiros, de uma rádio do RN, atacou a ativista adolescente Greta Thunbergcom comentários degradantes.  A jovem sueca de apenas 16 anos tem ganhado a atenção do mundo e tem discursado em importantes fóruns, como é o caso da Convenção do Clima da ONU, no último dia 23, sobre a destruição do planeta. Sua cruzada, que começou com um protesto solitário, agregou vozes de milhões de pessoas. Suas falas emocionadas fazem eco em todos aqueles que se preocupam com o futuro da humanidade. Para Gustavo, porém, Greta não passa de uma histérica que precisa de sexo e, naturalmente, de um homem.

Não é de espantar que as três figuras sejam apoiadoras de Jair Bolsonaro, que defende uma extensíssima agenda misógina em sua ‘plataforma’ de governo. Para ele e sua equipe, além de 12% de fiéis seguidores, falar de gênero é desvirtuar crianças e destruir famílias.  Ora, falar de gênero é questionar concursos de beleza infantis e reconhecer nessas práticas uma forma de violência. É questionar crenças que dizem que a mulher nasceu para agradar e servir ao marido e não para pensar. Falar de gênero é desmantelar discursos que atribuem a voz ativista das mulheres à histeria e à falta de sexo. Não fica difícil de compreender que a ‘ideologia de gênero’ (que não existe conceitualmente e que não é reconhecida pela ciência) serve a uma agenda de poder, de dominação e de exploração. Manter as mulheres apequenadas em seus espaços domésticos, cuidando dos maridos, preocupadas com seus colos, pernas e rosto e sempre duvidando de sua sanidade, é uma forma de mantê-las ocupadas demais para assumir o poder. Aos machos que têm medo de mulheres que estudam, mulheres que assumem canetas e microfones e que discursam para multidões, vai um aviso: não andamos muito interessadas em vocês. Se Greta quer sexo, ou não, se quer um homem, ou não, isso é da conta dela, não é assunto público; por ora, ela quer mudar o mundo.


 

Texto publicado originalmente em Visão do Vale, em 27/09/2019.

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7 Comments


thatysantos984
Nov 04, 2019

Antes de tudo, eu falo acho que não apenas por mim, mas também por outras meninas, jovens e mulheres, que agradecem por esse texto. Na sociedade em que vivemos, é o nosso dever nos unirmos em razão de apenas duas coisas: a igualdade e o respeito. Duas coisas que deveriam ser algo comum, mas que se tornam algo raro, somos oprimidas, colocadas em uma caixinha com rótulo de fragilidade. Mas o que eles não sabem é que estamos mais fortes que nunca, e que vamos lutar até o fim pelos nossos direitos. Nós não nos importamos com o rótulo de fragilidade ou de loucura. Pois só nós sabemos o que passamos nesse mundo, o que aguentamos, o que ouvimos; e…

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Pedro Garbin
Pedro Garbin
Nov 04, 2019

Gostei muito desta crônica, pois penso que crianças com idade inferior a 15 anos deve estar brincando, e não mostrando seu corpo em rede nacional. Muitas das vezes, essas crianças não possuem a decisão de escolha, são obrigadas a irem!


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jenni.dagostini
Nov 04, 2019

Crônica simplesmente incrível!

Além de muito bem escrito, contém dados que demosntram essa infeliz realidade a qual nós mulheres somos expostas todos os dias.

Muitas vezes os machos acabam ficando histéricos, pois se sentem ameaçados por mulheres que cada dia vão conquistando seu espaço em lugares que antes eram ocupados apenas por homens. Por isso devemos cada vez nos empoderar, ocupar nosso lugar de fala e não se rabaixar a esses machos histéricos.

Parabéns por essa preciosidade de texto.


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lutzjesiane
Nov 04, 2019

Mariléia, obrigada por essa crônica! Retratou muito bem a sociedade em que vivemos e como somos cercadas de homens histéricos. É muito importante que tenhamos alguém que escreva, diga e lute pelos direitos das mulheres como você faz.


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pamela.msilva.07
Nov 03, 2019

Maravilhosa crônica! Acho de extrema importância que as mulheres usem sua voz e exponham o machismo tão impregnado em nossa cultura. Desde o machismo velado em uma "inocente" competição entre crianças, até falas absurdas como a do pastor Edir Macedo. Essa cultura doentia que insiste em forçar as mulheres a serem submissas está enraizada, e agora está mais do que na hora de cortarmos essas raízes. E esses machos histéricos que saibam que as mulheres não se calam mais. Parabéns Mariléia por dar voz à nossa luta!

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