• Mariléia Sell

Mais fogueiras para as bruxas

Um casal me procura para fazer queixa da professora. Ela havia trabalhado halloween na escola. Não bastasse a situação por si só escandalosa, a professora nem era da área de língua inglesa! “O que tem a ver as bruxas com Geografia”, indigna-se a mãe vigilante. “Não aprovamos esse tipo de festa”, adianta. “Somos evangélicos”, esclarece o pai. Sem esboçar reação com essa informação adicional, já tenho o primeiro subsídio para a interação. “Bruxa não é coisa de Deus”, argumenta a mãe, preocupadíssima com a exposição da filha a ideias do diabo.


Arte: Daniel Cunha, a partir da ilustração de Camille Chew

A mulher, visivelmente mais incomodada que o homem, buscava a confirmação do marido a cada nova frase. Com o aceno afirmativo da cabeça do marido, ela prosseguia confiante na sua linha de raciocínio. As vezes ele esquecia de acenar, aí ela insistia: “Né, Nestor”? Nestor saia do seu estado de transe e acenava. A mulher voltava-se para mim e prosseguia. “Me diz o que as crianças podem aprender com halloween? O que vai acrescentar na vida delas saber que existiam bruxas? Que elas praticavam magia e que eram adoradoras do diabo”? “ Hein, Nestor, não é verdade”? Era verdade, claro. Nestor passava o recibo.

“Eu quero que a minha filha aprenda matemática e português”, diz na sequência. E traz argumentos contundentes para sustentar a tese de que a educação brasileira está “muito fraca”. “Hoje as crianças aprendem coisas sobre sexo na escola e isso é errado; isso a gente ensina em casa”. “Né, Nestor”? O homem estava quase dormindo, mas resolveu concordar.

Que ninguém pense que essa mulher de Deus não buscou o diálogo com a professora amante de bruxas. Ela tentou, sim. Foi questioná-la na porta da sala de aula. A professora ficou irritada; disse que estava atucanada com os preparativos da festa e que a mãe agendasse um horário na secretaria. “Eu estava gravando a conversa. Queria só que ela dissesse que minha filha perderia nota por não participar dessa festa do diabo”. O ‘diálogo’ com a professora logrou fracassado. “A professora me disse que o planejamento da aula era dela e que ela tinha estudado para estar ali”. A mãe achou isso um desaforo, sentiu-se afrontada no seu conhecimento epistêmico sobre como se dá uma aula. “Não é um desaforo, Nestor”? Nestor acena a cabeça. Também achava um desaforo a professora achar que sabia dar aula! E as famílias? Estavam agora desautorizadas a opinar? Não poderiam mais achar ruim que seus filhos fossem expostos a ensinamentos pagãos e obscenos? Eram uma família de valores, pessoas que seguiam os ensinamentos de Deus. “Digo sempre para a minha filha que as vezes é mais importante conhecer a bíblia do que estudar certas coisas que não trazem nada”, suspira desconsolada na sua luta contra um mundo cada vez mais disposto a corromper as crianças.

A mãe gostava de ser levada a sério, não era dessas mães que acusavam as professoras gratuitamente. Era esclarecida. Por isso, continua elaborando a sua ideia de que halloween não é apropriado e coloca na mesa um argumento irrefutável. Difícil mesmo de derrubar. “Essa tradição nem é brasileira”! “Né, Nestor”? Nestor não parecia muito atento, mas aí ele surpreende com uma contribuição tão inesperada quanto desconfortável. “Papai Noel é daqui’? A intenção de trazer o Papai Noel não ficou muito clara. Queria ele banir também o bom velhinho da escola ou queria ele dizer que o fato de as bruxas serem importadas não fazia tanta diferença assim! Será que estaria Nestor declarando uma pequena revolução nesse diálogo? Não saberei das intenções de Nestor, mas tenho que concordar com ele: Papai Noel não é daqui. Todos sabem que ele vem de longe, de trenó. Já as bruxas estão por tudo, tomaram conta. E são muito perigosas!

Texto publicado originalmente em Visão do Vale, em 09/11.

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