• Mariléia Sell

O altar do senhor

O badalar solene do sino se espalhava por todos os cantos, através da vizinhança inteira, convocando os fiéis a celebrar as múltiplas graças derramadas sobre eles. A estação entregava noites fabulosas, de orvalho fecundo, dias magníficos, solares. Campos fartos e colheitas abundantes se anunciavam, tal um ruído de trombetas sagradas. A liturgia para os rituais de agradecimento em tempos de tamanha glória exigia medidas extraordinárias, Neusa bem o sabia. Ela subia as escadarias intermináveis do templo como se estivesse em procissão ao céu. Cada degrau vencido na marcha era um tijolo a mais no seu íntimo santuário de virtudes. Tinha muitas doenças, das quais não lembrava os nomes, toda semana recebia diagnósticos, algumas moléstias eram inaugurais, outras tantas reincidentes, o que lhe dificultava os esforços de ser um modelo de devoção para as vizinhas. Porém, quanto mais frágil de saúde, mais fervorosa era capaz de se tornar. As penitências particulares eram sempre as mais dignas, as mais elevadas. Deus, certamente, estaria atento ao sacrifício. Saberia também que era a responsável pela arrumação do altar, tarefa que desempenhava há anos com o maior esmero. A toalha branquíssima e esticada do altar denunciava uma alquimia complexa de anil e goma. Coisa que só as donas de casa conseguem dosar. As competentes, claro. Sempre havia uma e outra mais displicente, algo que se enxergava de longe, por mais que não se quisesse reparar. Seus maridos andavam por aí com as golas das camisas murchas e amareladas; as crianças, amarrotadas.


Arte: Daniel Cunha

Poucas mulheres em todo o vilarejo igualavam o rigor nas práticas domésticas de que Neusa era capaz. Na verdade, nenhuma, se ela ou qualquer pessoa pudesse usar de palavras honestas, dir-se-ia, com a mesma tenacidade com que se materializava os vincos nas camisas dos maridos, que nenhuma era tão implacável para com os próprios deveres. Mas então, se a verdade pudesse ser proclamada sem pudores, Neusa talvez não pudesse conter em si os ímpetos de vaidade que algumas vezes já experimentara. E vaidade não podia, pecado capital, imperdoável, o pastor sempre dizia, com a piedade necessária que um bom condutor dos rebanhos do senhor deveria demonstrar, porém severo, para que nenhuma tentação fosse capaz de desviar as ovelhas do caminho. Cada canto da igreja rescendia limpeza, daquelas profundas, em que não se dispensa baldes e mais baldes de água, sempre renovada, por óbvio, para tirar a terra entre as frestas das tábuas. Nenhum grão de pó seria encontrado nem na mais apurada inspeção. Pelas vidraças, de tão transparentes, poder-se-ia enxergar a alma das pessoas do lado de fora. O perfume de rosas e lírios, colhidos frescos de seu jardim lendário, cuja fama cruzava fronteiras, invadia, em ondas, as narinas dos fiéis. O incenso amadeirado acrescentava uma mística sagrada ao ambiente, como é desejado em uma igreja. Os mais alérgicos, discretamente, esfregavam os narizes. Nada ostensivo porque igreja é lugar de gestos contidos.

Mal conseguindo flexionar os joelhos perante a enorme cruz erguida atrás do altar, Neusa dá uma última conferida em sua obra. Não que houvesse necessidade, era puro hábito. Ajeita os lírios no vaso. Espalma a toalha, mal escondendo o orgulho da sua técnica de engomar. Com muita reverência, ajeita a bíblia bem no centro da mesa. O hinário com capa de um marrom severo fica logo ao lado. Acende as velas: as grandes e as pequenas. Está tudo certo. Tudo perfeito. Ela se posiciona ereta para fazer as honras ao pastor que entrará assim que o sino der a última badalada. Ela sabia que não demoraria mais do que alguns segundos porque o estrondo metálico já dava sinais de desmaiar. Logo divisaria na porta de entrada a estola roxa recortada na longa túnica preta do pastor. Sempre se emocionava ao vê-lo entrar na igreja para a sua missão divina de conduzir os fiéis, de trazer-lhes a boa palavra de Deus. O pão da alma.

Do alto, Neusa contava os fiéis. Mentalmente, passava em revista as famílias da localidade. Estavam todos, com exceção dos Spönlein, o que não chegava a ser uma novidade. Não queria estar na pele deles na hora do juízo final, pensava. Uma vida reta, dedicada a Deus e à comunidade seria a sua prestação de contas quando chegasse a hora de se deparar com a balança da justiça divina. O que diriam os Spönlein em sua defesa na hora derradeira? A simples ideia lhe dava arrepios na coluna.

O sino finalmente morreu. Lá estava o pastor, recortado na luz que entrava abundante pela porta principal. A luz plácida de um fim de tarde primaveril. Atenta à liturgia, Neusa agarra o folheto e puxa a cantoria de saudação. Em clima de adoração, o coro engata, empolgado: “Então minha alma canta a ti senhor: grandioso és tu; grandioso és tu”. Com seu hábito esvoaçante, o pastor desliza pelo corredor e, finalmente, alcança o altar. Repentinamente, Neusa se perde na canção. Mistura uma parte da estrofe com o estribilho e dá uma desafinada. Não consegue acreditar no que seus olhos veem. O pastor é uma mulher! Como era possível? Tenta se recompor. Pode ser uma substituição de última hora, acalma-se.

Terminado o introito musical, a pastora explica que assumirá as almas a partir de agora. A liturgia segue e cada um acomoda a novidade a seu modo, com intermináveis considerações, internas, claro. Repentinamente, Neusa sente um alívio profundo em suas juntas castigadas pela nova doença que se acumulara às outras na semana passada. Muito mais que alívio, uma onda de euforia. Finalmente estava liberada das tarefas de arrumar o altar, o altar do senhor, de limpar as vidraças, de engomar a toalha, de lavar o chão, de levar flores, de acender as velas, de ajeitar a bíblia. A pastora, sim a pastora, repetia Neusa para si mesma, um pouco escandalizada. A pastora que assumisse também essas obrigações.

Texto publicado originalmente na Revista Visão do Vale, em 14/11/2019.

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