• Mariléia Sell

O batizado

As negociações com o padre corriam tensas. Afinal de contas, o batizado era um sacramento fundamental na vida de qualquer cristão. O primeiro. Aquele que inscrevia a pessoa na árvore genealógica divina. Nenhum cristão que se prezasse abdicava desse ritual sagrado. Por isso, os pais esforçavam-se para explicar ao padre o filho não batizado. O deserdado de Deus. E nem criança era mais. “Os outros meninos são todos batizados”, justifica-se a mãe, em franca cruzada contra qualquer possível julgamento precipitado do padre.

Arte de Daniel Cunha a partir da ilustração de Ricardo Cavolo


Revestido de toda a importância que um legítimo representante de Deus tem nessa terra de pecadores, o padre franze a testa e escuta. O ar grave torna ainda mais evidente a distância que existe entre o pastor e suas ovelhas. “Ele não quis a madrinha que escolhemos na época”, argumenta o pai, cada vez mais comovido por estar em ocasião tão solene, conversando com um padre. E na sacristia da igreja, sob o olhar de todos os santos pendurados na parede. Padres eram quase tão escassos quanto a chuva naquele sertão estorricado. Já as tentações apresentavam-se todos os dias, sem cerimônias. Estava cada vez mais difícil de resolver a equação entre o tamanho da seara de Deus e o número de operários dispostos a trabalhar. Mas a mãe era vigilante. Suas orações blindavam a família de todos os males. Não havia demônio, por mais sorrateiro que fosse, que pudesse alcançar a soleira da porta da casa. Oração de mãe tem poder, ninguém, absolutamente ninguém, duvida disso.  Orai e vigiai, estava escrito na bíblia. E se está na bíblia não havia contestação. Por ser vigilante, a mãe insistia no batizado. O filho não batizado experimentava esses dias de andar por caminhos muitos perigosos, que levavam a perguntas um pouco difíceis. Cada passo o confrontava com emoções dilacerantes. Para ela, o diagnóstico era claríssimo, elementar, na verdade. Faltava-lhe o sacramento para gozar da paz e das bem-aventuranças de que gozavam os filhos legítimos de Deus.  A mãe sabia. Seu coração lhe dizia. Depois de ungido, seu filho voltaria a ser o mesmo de antes, ela tinha certeza. E tinha fé. Fé em abundância.

Mas não era fácil assim negociar um sacramento tão divino. “São dois anos de preparação para adultos se batizarem”, informa o sacerdote. A mãe, aflita com essa informação tão inesperada, tão nova, concentra-se no rosário com pedras de turmalina. Era o antídoto contra qualquer obstáculo. Ela tinha fé. Haveria de dar certo. O padre batizaria o seu filho, acreditava, acariciando mais uma bolinha do seu rosário. Rezaria um mistério a mais todos os dias, prometeu para si mesma. Faria novenas para santa Rita. Muito poderosa, essa santa! O pai, a essas horas, concentrava-se na imagem de Santo Expedito. A causa, afinal, era bastante urgente!

Repentinamente, o padre se volta para o candidato e pergunta. “Você quer mesmo se batizar?”. Era importante perguntar porque podia ser apenas uma vontade dos pais. “As vezes a pessoa nem acredita em Deus, mas se batiza para agradar os pais”, insinua o padre, com uma espécie de clarividência premonitória, muito providencial para um homem do clero. E o homem, meio que pego de surpresa com uma pergunta tão inquisitória, com todo o peso da vida adulta que arrastava atrás de si, desde o instante em que recusara a madrinha que havia sido escolhida em seu nome, consegue, com algum custo, formular uma resposta mínima. “Sim”. Era de sua vontade batizar-se. A tensão já alcançara níveis bastante desconfortáveis a essas alturas. O pai mal continha o suor nas suas roupas de domingo. Ocasiões sacras sempre exigiam trajes com muitos panos, ignorando quaisquer condições climáticas. Era muito comum as coisas santas desconsiderarem as exigências do corpo. Era assim mesmo! E o povo se adaptava! Suando em bicas!

 E isso porque era apenas a véspera da cerimônia. O padre dissera que precisava de uma noite para se preparar, afinal era um batizado de uma pessoa adulta, com todas as marcas de múltiplas experiências mundanas que um adulto carrega consigo. No dia seguinte, estariam todos reunidos novamente. Mas se a véspera servia para apaziguar a consciência do sacerdote, servia igualmente para acentuar os conflitos pelos quais o filho passava, a ponto de chegar a concordar com a solução materna e optar pelo batismo. Em conversa secreta com os padrinhos, na calçada da igreja, confessara enfrentar dilemas tão árduos quanto os que Jesus tivera que viver em sua travessia pelo deserto, quando o demônio tentara desviá-lo de sua missão sagrada. E se o padre desconfiasse de suas motivações? E se fosse impuro aceitar o batismo, mesmo acreditando no valor das suas boas intenções?

Em um gesto já impossível de adiar, o padre assente com a cabeça. O batizado aconteceria. Todos ficam aliviados. E não era apenas por sua benevolência de sacerdote. Os tempos não estavam para dispensar fieis. Alguns protocolos precisavam ser flexibilizados as vezes. A taxa do batizado também já havia sido acertada com o secretário da paróquia, antes mesmo da conversa. Para não ocasionar mais entraves burocráticos, os padrinhos também omitiram viver em pecado. Se tudo fosse dito, as negociações seriam ainda mais penosas, concordaram todos.

Ao renunciar a todos os pecados e tentações do mundo, negar todos os demônios e reafirmar a sua crença na santa igreja, nos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição e na vida eterna, o homem lembra, na pia batismal, com a água benta a lhe encharcar os cabelos, que precisa remarcar o psicanalista. Com essa indecisão toda do padre, acabara acontecendo um choque de agendas.

Texto originalmente publicado em Visão do Vale, em 12/01/2018.

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