• Mariléia Sell

O lugar mais seguro do mundo

O lugar mais seguro do mundo é embaixo da cama. Qualquer criança sabe disso. Quando eu era pequena e meu pai assistia Chaparral na nossa telefunken preto e branco eu ficava imaginado o que faria se a nossa casa fosse invadida. Na minha infância não havia negociações: os adultos mandavam na televisão à noite, então tínhamos que assistir o que tivesse. A infância na roça, naquela época, era significada de forma mais rudimentar. Minha mãe costumava dizer, em um alemão pragmático e contundente, que “vontade de criança é cocô de gato”. Os adultos mandavam em tudo. A gente orbitava em volta deles e crescia porque a natureza é e sempre foi obstinada no seu propósito de preservação das espécies. A antena espinha de peixe pendurada no telhado frequentemente virava com o vento e a imagem era algo muito indefinido, as vezes só decifrável porque já conhecíamos as personagens e os cenários. Por conta disso, a nossa imaginação era muito convocada.


Arte de Daniel Cunha a partir da ilustração de Martina Paukova

Passados tantos anos e concretizando um temor que sempre tive, não sei de onde, essa sensação de medo voltou. Porém, agora sem os atenuantes da inocência. Sem uma cama para me esconder embaixo. “Mas tu pode ficar com as coisas só na tua cabeça”, diz a minha filha de nove anos, sem entender muito bem a extensão do meu medo. “Aí tu te protege, mãe”. Sim, agora posso me esconder embaixo do silêncio para me salvar dos bandoleiros que se aproximam neste faroeste brasileiro.

Escuto os bandoleiros de longe. Estão chegando a galope. Não há fuga possível. A certeza da chegada torna a espera ainda mais asfixiante. Não há mais cama para me esconder. O horror anunciado é sempre pior que o horror que vem de surpresa. É como o dentista que anuncia que o procedimento vai doer. Já sentimos a agulhada antes mesmo de o braço se aproximar. Foi assim nas últimas eleições no Brasil; dava para ouvir o horror se aproximando. Um horror desejado pela maioria. Um horror incompreensível.

Até tentei achar distrações antes de a tormenta apresentar-se na sua fúria total. Pesquisei uma receita de muffins de chocolate na internet. Separei os ingredientes. Peneirei as farinhas. Misturei. A receita pede para bater as gemas com a manteiga. E as claras em neve. Não tinha lido as instruções antes. Não tenho batedeira. Aborto os muffins. Meu forte sempre foi sopa mesmo! Picar legumes é altamente terapêutico!

Resolvo ligar para a minha mãe. Não há pessoa mais indicada no mundo para me acalmar nessas horas. “Minha filha, vem criar galinhas no interior”, diz, do alto de seu pragmatismo germânico. Chego a considerar a ideia. Enquanto faço planos de fuga, escuto o pé na porta. É tarde. Não há para onde fugir.

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