• Mariléia Sell

O professor de português

Atualizado: Abr 8

O professor estava virado para o quadro, desenhando flechas com giz colorido entre orações subordinadas. Com conjunção. Nas conjunções demorava-se mais e fazia múltiplos círculos. Ele era um pão, suspiravam as garotas pelos corredores. E somente por causa disso era que as aulas de português se tornavam suportáveis. Seus dentes pareciam de porcelana, coisa mais linda de se ver quando sorria. E era inteligente; estava até cursando mais uma faculdade, corriam conversas. Era importante a turma compreender que as orações subordinadas estabeleciam uma relação de dependência entre si. O nome já dizia tudo, insistia o professor, apelando para a nossa capacidade de estabelecer relações. “Elas depeeeeendem uma da outra para existirem, repetia e repetia, com ardor e ligeira afetação e sorria o seu sorriso de herói de novela. Elas têm uma relação de su bor di na ção”, dizia, voltando o olhar interrogativo para a turma, soerguendo um pouco a sobrancelha direita. Ele ficava ainda mais lindo quando parava para checar o grau de entendimento da turma. Até obter algum retorno sobre o nosso evidente despreparo, ficava um pouco vulnerável, com ares de desamparo; dava vontade de ir lá e dar um abraço e dizer que relaxasse, que seguiríamos a vida mesmo assim, sem um franco domínio das conjunções. Eu, por exemplo, continuaria lendo meus romances tórridos, mesmo sem compreender a frieza da gramática. Eu diria isso. Todos olhavam para o professor, mas ninguém podia afirmar, nem mesmo com tímidos acenos de cabeça, que havia entendido o mistério das orações subordinadas. A essas alturas, eu já abandonara qualquer esforço cognitivo em direção à sintaxe, estava concentrada no professor. Teria namorada?

Arte de Daniel Cunha, a partir das ilustrações de Helder Oliveira e Lorraine Sorlet


O ventilador de teto rangia e espalhava o ar quente sobre as nossas cabeças enfileiradas. Mas o que precisávamos entender mesmo, e isso era crucial, continuava o professor, é que nas orações subordinadas havia, normalmente, uma conjunção. Tinha mesmo fixação por conjunções, o professor.  O que eu queria mesmo era entender o que fazia um homem tão bonito, que teria o mundo inteiro aos pés, se quisesse, nutrir esse tipo de interesse pela anatomia da língua. “Vimos isso na semana passada, turma”. Ninguém deu mostras de lembrar ou então não queria arriscar sua reputação linguística em público. Ademais, de uma semana para outra, tantas coisas aconteciam! “São elementos de ligação”, dizia, fazendo um gesto de corrente com as mãos. “Como se fosse o cimento que vai entre os tijolos para a parede não cair”, ilustrava. Ah, sim, lembrávamos todos, com uma espécie de comoção por constatar que não éramos de todo estúpidos, como os bois que arrastavam as cangas através das roças. Assim, com analogias, tudo ficava mais fácil, enganávamos-nos.

Como eu poderia impressioná-lo sem entender nada, nadinha, de conjunções? As conjunções, continuava o professor, têm várias funções. Discutiríamos de forma mais aprofundada essas funções sintáticas no nosso primeiro encontro romântico, no banco da pracinha, sob a placidez das últimas luzes da tarde, sonhei. “Na página 97 temos a explicação dos três grupos de orações subordinadas”, e escrevia um enorme número três no quadro, de proporções alarmantes. Três flechas saem do número, uma para cada tipo de oração:  a substantiva, a adjetiva e a adverbial. A turma abre o livro com gestos ligeiramente impacientes; contidos, mas, ainda assim, impacientes. As orações substantivas, dizia, puxando sete flechas azuis, se dividem em subjetivas, completivas, nominais, predicativas, apositivas, objetivas diretas e objetivas indiretas. As adjetivas, mais duas flechas gordas e coloridas, desta vez amarelas, podem ser explicativas e restritivas. “Nas explicativas usamos vírgula, lembram? Nas restritivas, não”! Eu tinha absoluta certeza de que jamais saberia a diferença entre essas duas; também já estava convivendo com o fato de que pontuaria, para sempre, usando a intuição. Dispararia vírgulas de forma sensitiva. Já as adverbiais, trocava o giz para um pink ostensivo, podem ser de nove tipos. Nove? Jura? Sim, nove. Quem, nesta vida, lembra de nove tipos de orações subordinadas adverbiais? Mas o professor continuava firme no seu propósito de desbravar a nossa ignorância e as desenhava no quadro:  causais, consecutivas, comparativas, condicionais, conformativas, concessivas, finais, proporcionais e temporais. Um enorme arabesco colorido, com flores de conjunções, tomava a extensão do quadro. O professor, satisfeito e emocionado com a sua obra, um pouco suado até, volta-se para a turma e pergunta se alguém tem alguma dúvida. A minha dúvida era sobre o que ele faria depois da aula. Será que iria para casa?  Será que encontraria alguém?

A penitência da sétima série ia se arrastando, tão asfixiante quanto as tardes que desabavam sobre o pátio da escola. Passaria ainda pelos pronomes relativos sem descobrir uma vírgula sobre o professor. Mas um dia, flutuando sobre a poeira dos ladrilhos do corredor, em um segundo de fatalidade banal, porque as grandes revelações são assim mesmo, aterrorizantemente casuais, ao passar pela secretaria, ouço sons abafados. Sem pressa para as aulas de Ciências, colo meus ouvidos na porta, rezando para não ser pega pela tia da limpeza que enxotava os errantes de volta para a sala; a vassouradas, se houvesse resistência.

Entre pausas de silêncio absoluto e suspiros de satisfação clandestina, duas vozes se levantam. Uma delas era a voz hipnotizante do professor de português, reconheço-a de imediato, mesmo que diluída em um burburinho de milhares de outras vozes, ainda assim, eu a reconheceria. A outra, igualmente rouca e igualmente urgente, era menos identificável, porém carregada de uma certa gravidade infalível, espalhava uma vibração de autoridade em torno das frases tão misteriosas. Era o diretor, deduzi um pouco atordoada, ao passo que um vago ressentimento ardia em meu rosto. Estavam conversando, mas logo percebi que não podia ser uma reunião de trabalho; suas falas não eram assertivas, tão cheias de poder e de solenidade como eram na nossa frente, na sala de aula. Eram vozes entrecortadas e hesitantes. Cada novo passo me aproximava ainda mais da revelação definitiva. Faço a volta para espiar por um canto secreto da janela; os alunos são os que melhor dominam as cartografias escolares porque precisam sobreviver às aulas, e o que vejo acabaria definitivamente com o meu interesse por conjunções. O diretor e o professor estavam se beijando.

Texto publicado originalmente em Visão do Vale, em 08/02/2019.


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