• Mariléia Sell

O sacrifício de Bernadete

Sempre é tempo de redenção, e Bernadete estava decidida a melhorar como pessoa. Depois dos excessos do carnaval, queria retomar os caminhos da retidão e aproximar-se dos ensinamentos de Jesus. Iria com ele para o deserto e ficaria por lá os 40 dias bíblicos, em oração, em jejum, se preciso fosse (só levaria umas garrafinhas d’água). Em sua liturgia, passaria esse período sem falar mal de ninguém. Não lançaria palavras venenosas ao vento. Nem umazinha sequer. Passaria um zíper na boca. Mesmo com coceira na língua, não difamaria viva alma. Afinal, a quaresma é um período de conversão, de arrependimento, de sacrifícios. Se fosse para superar desafios fáceis, não teria graça, não teria valor algum aos olhos de Deus. E Deus a recompensaria em sua disposição para alcançar a pureza de espírito e a inscreveria na árvore genealógica divina. Ela seria um glorioso galho a nutrir-se das raízes sagradas e suas folhas sacudindo ao vento seriam o testemunho vivo da completa devoção à causa. Só quem conhece Bernadete, consegue entender a grandeza deste propósito.


Arte de Daniel Cunha a partir da ilustração de Jen Collins

Mas Bernadete, vivida que era, precaveu-se. Por acaso não sabia ela que as tentações estavam em todas as esquinas? E que as faces do diabo eram tão desavisadamente sedutoras? Ela não era boba nem nada. Na verdade, era até bem sabida. Passou a evitar os horários de pico na padaria. Trocou a academia por longas caminhadas matinais. Solitárias. Quando todos ainda dormiam. Também se afastou das redes sociais, um lugar sempre tão fecundo para as tentações. Salão de beleza, então, estava fora de qualquer cogitação. Adiantou-se nas luzes e na depilação. Faria a manutenção em casa mesmo. Era preciso vigilância. E estratégias.

Em uma rotina mais doméstica, Bernadete seguia o seu protocolo particular. Suas refeições passaram a ser mais modestas. Carne, só duas vezes por semana. Vinho, uma vez. Dispôs-se, também, a permanecer mais silente, em estado de oração. Tinha como propósito falar só o necessário. O mundo andava muito barulhento. Passado o rigor da primeira semana, fez uma pequenina concessão para o vinho. Sim, porque toda a proposição passa por um período de ajustes, isso é normal, ela sabia, até já previa a necessidade de adaptações. Quanto ao vinho, pensou, Jesus também apreciava a bebida, certamente não haveria problemas em aumentar para duas vezes, era até mais fácil de organizar com a carne, também racionada em duas porções semanais. Não haveria enganos. Como fizera várias investidas rumo à purificação, a flexibilização de apenas um item não comprometeria a totalidade do projeto, convenceu-se.

A penitência de Bernadete corria bem, ela andava sob o sol sentindo a fortaleza dos que abrem mão dos prazeres materiais deste mundo, dos que se elevam sobre os fracos de espírito. Dos ascensionados. Bernadete nunca saberá se foram esses instantes de distração, brevíssimas epifanias em que se perdeu na sua imagem refletida no lago, os responsáveis pela ruína. O fato é que o mal nunca dava tréguas e, muito pior que isso, ele podia até se insinuar para dentro da casa de Deus, na santa missa dominical. Como na história dos vendilhões do templo, os indignos se esgueiram sorrateiramente para desvirtuar e corromper, isso já na época em que Jesus andava sobre esta terra de pecadores. Essas histórias não eram aleatórias, refletiu Bernadete, estavam na Bíblia com o propósito de alertar as pessoas.

Ainda nas escadarias da igreja, a vizinha de Bernadete a interpela com olhos muito curiosos. “Por onde tens andado, vizinha?”. Bernadete, um pouco emocionada por estar entrando na igreja justamente na hora de o sino tocar, retruca, sem muito interesse: “por casa”. Não gostava de interrupções nesses momentos sublimes, quase sagrados. Em marcha ascendente rumo à entrada do templo, a vizinha continua querendo conversa. “Todos da rua estão preocupados; Sílvia chegou a comentar da sua doença”. Aquilo já era demais para Bernadete; além de ser interrompida em seu momento espiritual ainda ficava sabendo que era vilipendiada pela vizinhança?  “Que doença? Tenho eu lá uma doença? Olhe bem pra mim? Pareço doente? Sílvia que vá cuidar do seu filho maconheiro. Ela que se ocupe daquele vagabundo do marido”. Naquele instante de exaltação, o sino parava de tocar. O pé direito de Bernadete estava prestes a tocar a soleira da grande porta entalhada. Uma porta monumental. Um calor nas têmporas quase a derruba ao chão. Caíra em maledicência. Bem na porta da igreja.

Naquela noite, toma uma garrafa de vinho e se aninha nos braços reconfortantes do diabo, não no deserto, em casa mesmo, no conforto de seu sofá. Na quaresma do ano que vem, pararia de fumar.


Texto publicado originalmente no periódico Visão do Vale em 15 de março, 2019

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