• Mariléia Sell

O sorriso mais caro do mundo

Sentado na cadeira do dentista, Rosemundo mal podia esperar para ver o resultado final do seu longo tratamento. Não gostava do seu nome, mas também nunca encontrara uma abreviação adequada. Rose seria constrangedor porque é nome de mulher. E mundo não era nome de gente. Então resignava-se com Rosemundo, tentando, em vão, entender as razões dos pais. “Como alguém pode pensar num nome desses para o filho?”, ressentia-se. Se tivesse tido filhos, teria tido o maior cuidado do mundo na escolha do nome. Escolheria nomes que não dessem margem a constrangimentos. Nomes simples e consagrados. Pedro era um bom nome, pensava. Rita também não tinha erro.


Arte de Daniel Cunha a partir da ilustração de Daria Solak

Se a sua insígnia pessoal não lhe dava motivos para sorrir, pelo menos dentes para sorrir por outros motivos que a vida lhe apresentasse teria agora. Dentes caríssimos, branquíssimos, dentes de artista de novela. Se havia uma coisa cara nesse mundo era tratamento dentário, lamentava Rosemundo, pensando em todas as economias que tivera que fazer. “Pensa que é um investimento”, convencia-o o dentista.

Ainda na infância, Rosemundo perdera vários dentes para a pobreza. Aos 13 anos já lhe enfiaram uma dentadura. Uma dentadura que não se acomodava na sua boca ainda em formação. A combinação do nome mais a dentadura fizera de Rosemundo um homem acanhado, inseguro, especialmente para as coisas do amor. Se sorrisse e dissesse seu nome, acabaria qualquer possibilidade de conhecer alguém. Então não sorria e não falava. Mas sonhava. Sonhava poder escancarar a boca em um riso sem pudores, aqueles risos de propaganda de pasta de dente.

Quando o dentista o confronta com o espelho, Rosemundo não segura as lágrimas. Depois de tantas agulhadas, tantas brocas a lhe furar os ossos e bisturis a lhe cortar as carnes, tinha, agora, dentes. Dentes fixos e opulentos. Dentes que não dançariam mais na boca. “Pode comer picanha sem medo”, assegura-lhe o dentista, do alto de sua expertise profissional. Todo o esforço para pagar os implantes valera a pena, congratula-se Rosemundo. Agora teria coragem de chegar nas mulheres, seu sorriso quebraria todas as barreiras da timidez. Quando descesse daquela cadeira e saísse daquela sala com cheiro de flúor ganharia o mundo. Seria um novo homem. Um homem nascido para o amor.

Com a boca renovada e cheia de volumes onde antes só havia depressões, Rosemundo volta para casa. Os dentes projetados rejuvenesciam seu rosto. Até sentia-se bonito. Esticava o pescoço para olhar-se no espelho retrovisor. Mal podia acreditar que era ele. Imaginava-se em um jantar romântico. Comeria carne com ares despreocupados, como fazem as pessoas privilegiadas pela natureza. Sorriria muito e o mundo lhe sorriria de volta. O amor lhe sorriria, afinal. Aos cinquenta e dois anos, Rosemundo, finalmente, saberia como vivem as pessoas bem resolvidas. Com dentes!

Assim, embalado pelas promessas de sua imagem no espelho, Rosemundo sai da estrada e capota o carro. Morre feliz, como feliz nunca fora. Morre com a boca cheia de dentes.

Texto publicado originalmente em Visão do Vale, em 17/12/18.

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