• Mariléia Sell

Um conto de Natal

Mal o sol havia lançado suas primeiras labaredas incandescentes sobre a Terra e Pedro levanta para mais uma jornada de trabalho. Seria outro dia quente. Muito quente, remendou para si mesmo, suando, ao primeiro passo, a vida que nunca bastava e que ainda lhe escapava em água farta, por todos os poros abertos. Entre tropeços sonolentos, revira o armário sob a pia em busca de algo para comer, mas tinha muita pressa, o dia seria longo, longo demais, assim como era longo o caminho que suas curtas pernas precisavam percorrer atrás das vendas. Depois comeria qualquer coisa na rua, se algum tempo sobrasse. Os ossos saltando-lhe pelo corpo denunciavam suas correrias, nunca parava, vendedor aplicadíssimo que era. Ajeita o cabelo com gel para dar aquele efeito espetado, moderno. Não era só uma questão de vaidade, uma boa aparência aplacava olhares desconfiados, despertava simpatia na clientela. Arruma a gola da camisa, olha-se no espelho e coloca a máscara. Uma pena, a máscara esconde o seu sorriso, mas ele sorri mesmo assim, atrás do pano quente que lhe tapa a boca e o nariz e lhe sufoca a respiração.

Arte: Daniel Cunha


Os olhos ficam espremidos com a largueza do sorriso, também um pouco embaçados com o bafo quente que sai da boca. Mas sorria sempre. Era ainda mais necessário sorrir nesses dias de fim de mundo em que os ares abafados do verão pulverizavam o terror de uma praga invisível sobre todas as coisas. Nem mesmo que a chuva arrastasse tudo para os bueiros, bastava que o sol saísse para que o vírus ressuscitasse em vapores pestilentos, diziam as senhoras espalhadas pela rua antes que o sol morresse, em grupos pequenos, é bem verdade, pois aglomerações eram perigosas nesse momento, isso também se repetia à exaustão. Falava-se, inclusive, no preço impraticável do peru de Natal, as ofertas do mercado nos anúncios do rádio ou nos panfletos coloridos arrastados nas ventanias antes das tempestades davam conta da inflação descontrolada. Sim, a inflação limitava os planos de opulência nas mesas, mas, talvez, o Natal proibido não fosse tão ruim assim, ponderavam as mulheres com suas vassouras em punho, no limiar de mais uma tarde vencida.


Depois que o vírus se espalhou pelos quatro cantos do planeta, obrigando todos aos protocolos da nova ordem, Pedro também fez algumas adaptações em sua vida. Nada muito assustador porque era acostumado a adaptar-se. Adaptava-se desde que nascera. Tivera que interromper os estudos, por ora, mas isso poderia retomar depois, sempre era tempo, como se dizia por aí. Agora precisava focar no trabalho, isso, sim, não podia ser adiado e, além disso, os conhecimentos que tinha eram mais do que suficientes para garantir-lhe a sobrevivência. Era até bem esperto para os negócios, reconhecia. Poucos colegas de trabalho tinham o seu carisma e a sua vocação para o comércio e quase ninguém batia as metas diárias como ele. Enquanto caminha pelo asfalto e o vapor quente lhe incendeia as bochechas, retoma, mentalmente, as suas estratégias de vendas. Era sempre uma equação delicada explicar a inflação. A economia nacional, muito instável, como dizia, dia sim e outro também, com ares graves, o âncora do Jornal da Noite deixava as pessoas apreensivas e com tendências a não gastar. Para piorar o cenário, era semana de Natal, período de muitas despesas. Ele próprio espichara os olhos para uma vitrine ricamente decorada e passara a nutrir desejos.


Um pouco apreensivo e com o coração acelerado, Pedro começa o seu turno. Estica a camisa, passa a mão no cabelo engomado e oferece o produto para uma mulher que já é sua cliente há mais tempo. Era rica, a mulher. Uma leitura fácil de fazer, avalia Pedro, enquanto repara nas unhas pintadas de um vermelho tão intenso quanto o calor do sol e na pele viçosa e bem cuidada, pele de quem tem mesa farta, diariamente, do café ao jantar, e dinheiro para comprar perus natalinos. E as roupas, ah, as roupas tinham um caimento tão perfeito, eram tão vaporosas que pareciam flutuar em volta da mulher. Não eram feitas desses tecidos grosseiros que não se ajeitam ao corpo. Mas não era hora de análises desta natureza, era preciso avançar na proposta de venda; não seria muito direto para não afugentar a mulher, começaria perguntando sobre o seu dia, pergunta retórica porque só conseguia imaginar dias radiantes para alguém como ela, aí lamentaria a crise nacional e a pandemia. Depois falaria da inflação e então, somente então, falaria do reajuste do seu produto. Explicaria que não tinha aumentado sua margem de lucro, não faria uma coisa dessas justamente na semana de Natal, não, não era esse tipo de oportunista. O reajuste era do fornecedor. Aprendera, com a experiência, que as más notícias devem ser entregues devagar, com muitas explicações e alguns suspiros. “Subiu cinquenta centavos”, diz, finalmente. A mulher estende uma nota de dois reais: “pode ficar com o troco”. Pega seu saquinho de jujubas, sobre o vidro do carro e desaparece. Satisfeito com a sua sorte logo na primeira venda do dia, Pedro começa a considerar o carrinho de controle remoto que tanto cobiçara da vitrine.


Texto publicado na Revista Visão do Vale, em 23/12/2020.


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