• Mariléia Sell

A mulher do prefeito

Irene andava visivelmente satisfeita com o seu jardim. Nada a enchia mais de orgulho do que os elogios que recebia pelo seu capricho. Se havia algo que valorizava uma dona de casa, era a sua competência para manter um jardim. E todos os fatores estavam astrologicamente alinhados para o sucesso de Irene: seu lendário dom com plantas e o tempo que resolvera colaborar naquele ano. A chuva e o sol andavam perfeitamente sincronizados, e as plantas respondiam com colorações furiosas. As samambaias despencavam de alturas incalculáveis no alpendre da casa de Irene. E, calculadamente, o alpendre dava para a rua. As orquídeas, raríssimas, aliás nunca antes catalogadas naquela região, esnobavam as suas cores em pencas generosas. Em tom misterioso, Irene dizia que as tinha trazido de uma viagem que fizera: “uma viagem para fora do estado”, esclarecia, envaidecida. Coisa tão linda tinha mesmo que ter vindo de longe, pensavam todas. E todos.

Arte de Daniel Cunha a partir da ilustração de Nadiuska e Priscila Furtado

Em missiva especial para inspecionar as estradas do interior, porque se havia uma coisa que punha um chefe do executivo pra baixo na aceitação popular eram estradas esburacadas, o prefeito também fora arrebatado por tamanha beleza. Espantado consigo mesmo por ter reparado na flor, pois, como homem importante e ocupado que era, não costumava perder tempo com deslumbres adequados somente a senhoras, o prefeito só conseguia pensar em uma coisa: “minha mulher precisa ver isso”. Conhecedora de flores, sua mulher, certamente, saberia reconhecer tamanha raridade. O prefeito gostava de receber a confirmação da mulher sobre as suas opiniões. Em época de eleições, seu oráculo era a esposa. Se ela dissesse para fazer algo, mesmo contrariando elaborados estudos da ONU, não havia assessor que o demovesse da ideia. E as urnas sempre confirmavam a astúcia da mulher!

“São lindas”, confirmou a mulher do prefeito, em transe absoluto. Irene não cabia em si de contentamento. Afinal, toda a sua dedicação recebia o carimbo das autoridades máximas do município. O olhar admirado do prefeito e de sua mulher seria, dali pra frente, o que a distinguiria das pessoas comuns. Secretamente, sempre odiara a ideia de ser igual a todo mundo. Acalentava a ideia da distinção e achava que, finalmente, a vida lhe fazia justiça. A visita do casal seria assunto em todas as rodas de conversa. Não haveria uma rodada de canastra em que não se falaria disso. Nos bolões, as vizinhas cochichariam sobre a comitiva à casa de Irene. Todas pediriam mudas do pé de orquídeas e ela desconversaria, diria que ainda não era época de transplante, ou diria, com ares sinceramente comovidos, que esse tipo de orquídeas era muito sensível e que não resistiria a mudanças. Seria signatária de toda a admiração do lugarejo por ser a única a possuir a orquídea rara. A que trouxera de tão longe. A que cultivara com tanta competência.

Naquela noite, Irene dormiu na gloriosa cama do reconhecimento. No dia seguinte, levantou-se e, como em todas as outras manhãs desde que possuía a orquídea, andou em sua direção somente pela satisfação de contemplá-la, pelo orgulho de tê-la. Mas a flor, ignorando as ansiedades humanas de sua dona, sem um único aviso, ou sintoma de que algo estivesse errado na véspera, não exibia a exuberância de suas cores fabulosas. O que Irene demorou a perceber, quase em estado de negação, era que a flor estava morta.

Texto originalmente publicado em Visão do Vale, em 10/12/2018.

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